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Saiu na Imprensa


Veículo de Comunicação: Portal BHAZ - 20 de março de 2017

A internação de três pessoas em Niterói (RJ) com suspeita de Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) – cuja variante é o Mal da Vaca Louca (vDCJ) – tem gerado temor e informações truncadas pelo Brasil nos últimos dias. Os boatos disseminados a partir das internações ganham força justamente pela dificuldade em separar uma DCJ tradicional do Mal da Vaca Louca – cuja diferenciação é, basicamente, a forma como a doença foi contraída.

Apesar de mensagens viralizadas principalmente por WhatsApp afirmarem a morte de até sete pessoas, em Niterói, por Mal da Vaca Louca, o fato confirmado pela prefeitura da cidade fluminense é que três pessoas estão internadas em hospitais particulares com suspeita de DCJ. Uma quarta chegou a ser diagnosticada com a mesma suspeita, mas a hipótese já foi descartada e ela já recebeu alta.

As três pessoas que permanecem sob cuidados médicos, dentro de instituições de saúde, não tiveram o nome, sexo ou mesmo idade divulgados. Dessas três, ao menos duas estão internadas desde 2016 – portanto, já há pelo menos dois meses e meio. A divulgação da idade dos pacientes ajudaria para descartar as informações disseminadas sobre o Mal da Vaca Louca (como será explicado mais à frente), mas a Prefeitura de Niterói alega sigilo médico.

Questionado pelo Bhaz, o Ministério da Agricultura é taxativo: o Brasil jamais registrou um caso de Mal da Vaca Louca. “O Ministério da Agricultura jamais confirmou caso da doença Encefalopatia Espongiforme Bovina, popularmente conhecida como vaca louca, em toda sua história”, informou, por nota.

Mal da Vaca Louca em Niterói pode ser descartado?

Não, mas vamos por partes. A DCJ é uma doença fatal e muito rara – segundo o Ministério da Saúde, acomete de uma a duas pessoas a cada 1 milhão de habitantes. “Tem caráter neurodegenerativo não existindo tratamento e sendo fatal em todos os casos. É causada por uma partícula proteinácea infectante denominada de “PRION”. Assim como outras encefalopatias espongiformes transmissíveis, é caracterizada por uma alteração espongiforme visualizada ao exame microscópico do cérebro”, explica informativo do governo federal.

De 2005 a 2014, o Ministério da Saúde registrou 439 notificações de casos suspeitos de DCJ. Desse total, apenas 38 (8,6%) foram confirmados definitivamente; 15 (3,4 %) foram classificados como uma possível DCJ; 54 (12,3%) se enquadram como DCJ provável; 38 (8,6%) casos foram descartados; e 294 (67%) não possuem dados suficientes para confirmação. Portanto, em dez anos, o Brasil teve média de menos de quatro casos “confirmados definitivamente” por ano.

Como diagnosticar a DCJ?

A complexidade da DCJ e sua variante, a vDCJ, começa já no diagnóstico. Para efeito de ilustração, o exame para confirmar definitivamente a presença da doença não existe no Brasil. “A DCJ esporádica pode ser identificada através da análise do líquor, mas é um tratamento muito recente, disponível em poucos lugares do mundo”, explica ao Bhaz a secretária do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Academia Brasileira de Neurologia, Jerusa Smid.

O neurologista Rodrigo Vasconcellos Vilela afirma que, no país, quatro fatores são analisados para a constatação da DCJ. “Demência rapidamente progressiva: se a pessoa apresenta esse quadro evoluindo rapidamente em algumas semanas, deve ser investigado. O segundo fator é distúrbio cerebral ou visual. Também temos o mutismo acinético, quando o paciente começa a perder a fala de forma gradativa. E, por fim, a liberação piramidal, quando a pessoa tem reflexos exacerbados, como espasmos”.

Se uma pessoa apresenta ao menos dois desses quatro sintomas, o caso já deve ser estudado como possível DCJ. E o diagnóstico no Brasil? O neurologista Paulo Caramelli explica. “É preciso primeiramente olhar o histórico familiar, geralmente pedimos também uma ressonância, pulsão lombar, um eletroencefalograma [teste que avalia atividade elétrica do cérebro]. São alguns exames necessários para chegarmos ao diagnóstico correto”, explica o especialista.

E o diagnóstico da Vaca Louca? “A vDCJ pode ser confirmada por biópsia de tonsila palatina [massa de tecido linfoide, localizada em ambos os lados da garganta], feita ainda em vida. Ressonâncias magnéticas também podem ser feitas, pois através de algumas alterações, pode se ter um caminho a seguir”, diz Smid.

Qual diferença de DCJ para Vaca Louca?

Basicamente, a forma como se contrai. Segundo o Ministério da Saúde, “a forma exata de aquisição da DCJ ainda é desconhecida” – 85% dos casos são contraídos de forma esporádica. “Não existe nenhuma relação de transmissibilidade, nem evidência da doença na história familiar do paciente”, diz o informativo do governo federal.

Também pode ser contraída por outras três formas: hereditária, por mutação genética, com 50% de chances de transmissão para os descendentes; a partir de procedimentos cirúrgicos ou uso de instrumentos neuro-cirúrgicos ou eletrodos intracerebrais contaminados; e por ingestão de carne bovina contaminada – forma que ganhou o apelido de Mal da Vaca Louca.

Outras diferenças são em relação ao tempo de vida após a contração da doença e a idade mais usual dos pacientes. A DCJ normalmente atinge pacientes de 60 a 65 anos. Em média, o paciente sobrevive nove meses e a doença é caracterizada por quadro de demência de rápida evolução, associado a mioclonias (movimentos involuntários), ataxia (alteração de coordenação e equilíbrio) e até mesmo alterações visuais”, afirma Jerusa Smid.

Já a vDCJ é contraída por pessoas mais jovens, em uma faixa etária aproximada de 30 anos. “A evolução é um pouco mais lenta, a pessoa sobrevive em média de 12 a 14 meses. Tem como característica inicial alterações psiquiátricas. O exame de ressonância magnética do cérebro tem alterações diferentes nas duas doenças”, completa a especialista.

Vídeo e áudios viralizam

Se, por um lado, não é possível descartar o Mal da Vaca Louca nos três pacientes de Niterói, tampouco podemos afirmar que a enfermidade se trata da vDCJ. Como já citamos neste texto, a maior probabilidade de contração entre as variantes de DCJ é justamente a esporádica (85%), o que em nada tem a ver com ingestão de carne bovina.

No entanto, nos últimos dias, um combo com um vídeo e dois áudios viralizaram pelas redes sociais. As imagens mostram um homem manuseando uma carne bovina com a suposta doença. O autor da gravação mostra algo retirado da carne, com uma textura sebosa e amarelada. A peça está praticamente tomada pela suposta bactéria. Durante a gravação, o homem ainda fala que não costuma retirar esses resíduos da carne antes de vender.

 “Esse vídeo é um grande absurdo. A doença da vaca louca só pode ser diagnosticada através de exames na cabeça do boi. O que foi visto não é a doença, mas também não poderia ter sido enviada para consumo”, diz o presidente da Afrig (Associação de Frigoríficos de Minas Gerais, Espírito Santo e Distrito Federal), Sílvio Silveira. “Uma carne como aquela do vídeo jamais deveria ser vendida. Não sairia do abatedouro em uma situação normal, mas não se trata da Vaca Louca”.

“Para sabermos de fato o que é, devem ser feitos exames microscópicos, não é possível ver o Mal da Vaca Louca a olho nu. Todo um procedimento no cérebro do animal deve ser feito”, completa o veterinário Evandro Machado, do IMA (Instituto Mineiro de Agropecuária).

A professora de doenças virais, da Escola de Veterinária da UFMG, Zélia Inês Lobato, afirma que no Brasil, o risco do Mal da Vaca Louca é insignificante. “Nunca tivemos nenhum caso em território nacional, todas as medidas são tomadas para que a doença jamais chegue até aqui, o risco é desprezível”.

Mas do que se trata aquele amarelo nojento? “Provavelmente foi provocada por uma infecção. Com certeza, não está relacionado ao mal da Vaca Louca, doença que é causada por uma proteína modificada, denominada de príon”, diz Machado.

E como fugir dessa carne de péssima qualidade? Quando for escolher uma carne, é melhor optar pelas que têm o selos de qualidade, SIF (Sistema de Inspeção Federal) ou SIM (Sistema de Inspeção Municipal). Quer dizer que elas já foram devidamente inspecionadas e se encontram livre de perigos”, completa Lobato.

Áudios

Acompanhado desse vídeo um tanto quanto nojento e alarmante, são enviados dois áudios. “Um cliente, cuja esposa é médica, veio comentar comigo que está cortando a carne vermelha porque, segundo ele, já faleceram alguns casos [sic], em Niterói especificamente, sete casos”, diz uma voz masculina em um deles.

O autor ainda conta que a prima da esposa do tal cliente contraiu a doença em novembro e teria sido internada em janeiro deste ano. “Agora acabou de descobrir que tem três meses de vida”, afirma. Por fim, ele diz que o Rio de Janeiro estaria com vários casos e o governo estaria omitindo para não afetar a economia.

No segundo áudio, outra voz masculina afirma que confirmou com pessoas da área de saúde que estamos próximos de uma epidemia. Alega ainda que sete pessoas já teriam morrido em Niterói e que o mal não teria cura. “Ninguém vive mais de seis meses”, diz.

Sobre a veracidade dessas informações, já esclarecemos nesta reportagem. De fato, existem pessoas com suspeita de DCJ internadas em Niterói. Mas nenhuma morreu e muito menos está confirmado o Mal da Vaca Louca.

Confira as notas oficiais na íntegra:

Nota da Prefeitura de Niterói

A Coordenação de Vigilância em Saúde do município de Niterói foi notificada sobre a ocorrência de quatro casos suspeitos da Doença de Creutzfeldt–Jakob (DCJ) na rede privada, três deles em 2016 e um em 2017. Um dos casos já foi descartado. Não houve notificação de óbito. Todos são investigados e monitorados.

A Fundação Municipal de Saúde convocou uma equipe, composta por médico neurologista e pela Coordenação de Vigilância em Saúde e pelo Departamento de Vigilância Sanitária, que está mobilizada no acompanhamento e investigação dos casos. Técnicos estão entrevistando os pacientes e seus familiares para rastrearem possíveis causas para a doença. O município também comunicou a Secretaria de Estado de Saúde, que está trabalhando em conjunto com a Fundação Municipal de Saúde na investigação. Estão sendo seguidos todos os protocolos do Ministério da Saúde.

Não há até o momento evidências da relação desses casos suspeitos com o consumo de carne bovina, portanto não se deve utilizar o termo “Mal da Vaca Louca”.

Doença de Creutzfeldt–Jakob (DCJ) – retirado do site do Ministério da Saúde

A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma Encefalopatia Espongiforme Transmissível que acomete os humanos, sua incidência é estável e descrita com sendo de 1 a 2 casos novos a cada 1.000.000 de habitantes e é discretamente mais prevalente em mulheres. Tem caráter neurodegenerativo não existindo tratamento e sendo fatal em todos os casos. É causada por uma partícula proteinácea infectante denominada de “PRION”. Assim como outras encefalopatias espongiformes transmissíveis, é caracterizada por uma alteração espongiforme visualizada ao exame microscópico do cérebro. Regularmente é diagnosticada no país, ocorrendo normalmente em pessoas com idade entre 60 e 80 anos, com uma idade média de morte de 67 anos. A partir dos primeiros sintomas da doença, o tempo de vida médio paciente é de um ano. O paciente típico com DCJ desenvolve uma demência progressiva rapidamente associada com sinais neurológicos multifocais, ataxia e mioclonias ficando muda e imóvel na fase terminal.

A forma exata de aquisição da DCJ ainda é desconhecida, podendo ocorrer por quatro mecanismos de transmissão conhecidos:

– Esporádica: Não existe nenhuma relação de transmissibilidade, nem evidência da doença na história familiar do paciente. Essa forma é responsável por aproximadamente 85% dos casos de DCJ.

– Hereditária: Decorrente de uma mutação no gene que codifica a produção da proteína priônica, que tem 50%de probabilidade de ser transmitida aos descendentes.

– Iatrogênica: Surge como consequência de procedimentos cirúrgicos (transplantes de dura-máter e córnea) ou através do uso de instrumentos neuro-cirúrgicos ou eletrodos intracerebrais contaminados.

– Variante da DCJ: A outra forma da doença está associada ao consumo de carne e subprodutos de bovinos contaminados com Encefalite Espongiforme Bovina (Doença da “vaca louca”) e é conhecida como variante da Doença de Creutzfeldt–Jakob (vDCJ). Os primeiros casos surgiram em 1996 no Reino Unido e diferentemente da forma tradicional (DCJ), ela acomete predominantemente pessoas jovens, abaixo dos 30 anos.

Nota do Ministério da Saúde

A doença de Creutzfeldt–Jakob é uma Encefalopatia Espongiforme Transmissível Humana que ataca o sistema nervoso central, sendo de rápida evolução e fatal. Caracteriza-se por uma desordem cerebral com perda de memória e tremores, sendo mais comum a forma esporádica, que inicia entre 55 e 70 anos de idade.

A EEB também é conhecida como “Doença da vaca louca” em bovinos, sendo erroneamente confundida pela população com a forma da nova variante (vDCJ) que acomete o homem. No Brasil, nunca foram confirmados casos da nova variante (vDCJ) , ou seja, que tenham sido causados pela ingestão de carne bovina ou derivados contaminados.

A inexistência de animais com diagnóstico de Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) no Brasil confirma a inexistência de casos ou óbitos dessa forma (vDCJ) na população brasileira. Por isso, o Brasil é classificado pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) como país de risco insignificante para EBB, a melhor classificação existente.

*Zélia Lobato é professora do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Escola de Veterinária da UFMG.

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Veículo de Comunicação: Programa Bom Dia Minas - Rede Globo Minas - 23 de março de 2017

Entrevista ao vivo: Professor da UFMG explica a fraude na fiscalização da produção de carnes no Brasil.

*Wagner Luiz Moreira dos Santos é professor do Departamento de Tecnologia e Inspeção em Produtos de Origem Animal (DTIPOA) da Escola de Veterinária da UFMG.

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Veículo de Comunicação: Diário da Manhã - 27 de março de 2017
 
Existe uma máxima de que o homem é o único animal que, mesmo adulto, continua consumindo leite. No entanto, o professor de Nutrição da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP) Antonio Herbert Lancha Júnior afirma que “isso acontece porque ele é o único que tem acesso à bebida. Se dermos leite para um gato, um cão ou a um porco, todos irão tomá-lo”.
 
Existem algumas evidências agora de que há mais de 10 mil anos atrás, o leite da vaca era nocivo ao humano na fase adulta. Isso acontecia porque os humanos mais velhos não produziam lactase, a enzima responsável por quebrar a lactose, o açúcar presente no leite.
 
Mas segundo um artigo publicado na revista científica especializada Nature, uma mutação genética permitiu que o organismo humano produzisse lactase. Essa alteração teria se propagado pela Europa e sido transmitida de geração para geração, assim, a bebida passou a ser introduzida na rotina alimentar de um continente inteiro.
 
Um composto benéfico encontrado no leite da vaca é o cálcio. “A Nutrient Rich Foods (NRF) classifica o leite como alimento de alta densidade nutricional. Para essa classificação, o preço também é levado em conta”, disse a nutricionista Olga Amancio, presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN).
 
Geralmente, recomenda-se que um adulto consuma diariamente mil miligramas de cálcio, para beneficiar os ossos. Mas, apesar de parecer fácil, não é bem assim. Segundo o professor de reumatologia da Universidade Federal do Paraná, Sebastião Radominski, muitos não conseguem ingerir essa quantia diária: “Inquéritos alimentares mostram que nossa ingestão média é de 400 miligramas”, disse ele. Isso se deve ao fato de que as outras fontes de cálcio fornecem muito pouco desse nutriente.
 
Mas, o que mais importa nesse caso é o quanto de cálcio o organismo consegue usar: “Quando o cálcio vem do leite, 30% dele é absorvido. Se for proveniente de vegetais, a exemplo dos brócolis, esse valor cai para 5%”, disse a nutricionista Lígia Martini, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP.
 
Existem estimativas de que para incorporar a mesma quantidade de cálcio existente em um copo de leite seria preciso comer 4,5 porções de brócolis ou 16 porções de espinafre.

O leite ajuda a combater à osteoporose?
 
Mesmo que o leite tenha uma grande quantidade de cálcio, alguns estudos contestam a importância na bebida na prevenção de osteoporose.
 
Em um estudo realizado pela Universidade de Uppsala, na Suécia, os pesquisadores analisaram os hábitos alimentares de 61.433 mulheres 45.339 homens através de questionários que foram respondidos pelos participantes. O resultado mostrou que o alto consumo de leite não previne a osteoporose e, na verdade, aumenta o risco de fraturas.
 
“Nossa hipótese é de que a culpa recai sobre a galactose, quando essa substância – formada a partir da quebra da lactose – é injetada em animais, observa-se uma morte prematura em decorrência de reações como a inflamação. E esses fatores também estão por trás de fraturas por fragilidade óssea em idosos”, disse Karl Michaëlsson, epidemiologista e principal autor da pesquisa sueca.
 
Mas, os próprios autores do estudo pedem cautela na interpretação do resultado: “Definitivamente precisamos de novas pesquisas”, assume Michaëlsson. No estudo, os pesquisadores quantificaram a ingestão de lácteos e a ocorrência de fratura, mas não dá para saber se os voluntários responderam fielmente ao questionário.
 
Outro estranho fator na pesquisa é o de que a lactose, depois de digerida, vira galactose e glicose e segundo Lancha Jr., a galactose é absorvida melhor no organismo e por isso, a probabilidade desse consumo gerar uma inflamação é pequena.
 
Apenas pessoas com uma condição chamada galactosemia não consegue assimilar direito essa molécula. Mas, segundo a médica Maria Raquel Carvalho, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) essa é uma condição muito rara que se manifesta apenas nos primeiros dias de vida de uma bebê.
 
Para ela, a galactose pode não ser inócua para quem não possui esta condição, mas essa é uma hipótese a ser investigada. “O leite é um produto extremamente complexo. Por isso, acho delicado colocar a culpa em uma única molécula”, ponderou Maria Raquel. Um outro estudo feito em 2016, pelo Instituto de Saúde Carlos III, da Espanha, descobriu biomarcadores do sangue que são capazes de mostrar a ingestão verdadeira de leite.
 
Quando realizaram testes com 7 mil pessoas, os pesquisadores não encontraram ligação entre o leite e o risco doenças cardíacas. No entanto, sempre foi ensinado que a vaca produz o leite cheio de gorduras saturadas e por muito tempo foi o pior inimigo do coração. Dentre os tipos de gorduras no leite estão o esteárico, palmítico e mirístico.
 
Segundo a nutricionista Marcia Gowdak, diretora do Departamento de Nutrição da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) o esteárico não influencia no colesterol. “Já os outros dois até aumentam sua versão ruim, o LDL, mas também elevam a concentração do bom, o HDL”, relatou Gowdak.
 
Por esse e outros motivos, muitos estudos não incluem o leite na lista dos adversários do coração. Mesmo após as fontes de gordura serem acusadas de causar uma epidemia de obesidade e diabetes tipo 2 nos Estados Unidos, o domínio dessas condições triplicou no país. Segundo Marcia Gowdak, o perigo está na substituição de alimentos que as pessoas fazem. “Quem tira leite e derivados dificilmente coloca outras fontes de proteína no lugar”, analisou Marcia.
 
Neste caso, o carboidrato predomina na alimentação. O iogurte é substituído pelas torradas, o leite é trocado pelo suco e assim por diante. Mas, existem dados que mostram que ao abusar desse nutriente, a concentração de moléculas de Colesterol LDL aumenta. Embora muitos pensem que a relação entre formatos de colesterol e a respectiva periculosidade deva ser estudada minunciosamente, o cardiologista Rogério Krakauer, da Socesp, afirma: “Não devemos vilanizar a gordura saturada. Ela pode, sim, fazer parte de uma dieta balanceada”.
 
Por exemplo, se uma pessoa nunca teve um problema cardíaco e começa a comer mais vegetais do que carne, segundo Marcia, é possível beber leite integral sem maiores problemas. Existem indícios de que o leite integral domine 70% do mercado no Brasil e auxilie nos problemas relacionados ao peso.
 
De acordo com um experimento realizado pela Universidade de Tufts, nos Estados Unidos, consumidores de leite integral eram menos propensos a ter diabetes tipo 2. Mas, segundo Lancha Jr., um trabalho publicado recentemente mostrou que os diabéticos que tomavam leite integral tinham melhor controle glicêmico. “Uma teoria é que ela deixaria a flora intestinal com perfil mais positivo, o que reduziria a inflamação no corpo”, detalhou.
 
Existem rumores também que dizem que o leite contribui para o desenvolvimento de alguns tipos de câncer, devido aos hormônios que passam da vaca para o leite. “Em pesquisa recente, cientistas viram que essas substâncias realmente entram no corpo. Porém, não são absorvidas”, disse Flávia Fontes, veterinária da UFMG e responsável pelo movimento Beba Mais Leite.
 
Para os pesquisadores detectarem os vestígios desse hormônio no sangue, eles tiveram que aumentar mil vezes a concentração deles no leite. No último relatório do Fundo Mundial de Pesquisa em Câncer, foi concluído que as provas são limitadas a respeito da ligação do leite com o surgimento de tumores.
 
“O que temos de robusto é que o sobrepeso e a obesidade elevam o risco de desenvolver esses tumores”, disse a nutricionista Maria Eduarda Diógenes Melo, da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Instituto Nacional de Câncer. “A população oriental possui alta prevalência de intolerância à lactose e acaba excluindo o leite. Nem por isso ela tem menos câncer”, analisou o cirurgião oncológico Samuel Aguiar Júnior, do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo.
 
Intolerância à lactose
 
 
Muito se fala sobre a intolerância à lactose. Com o tempo, a fabricação da enzima lactase, que quebra a lactose, diminui. Assim, quando não se tem essa substância, a lactose tem efeito nocivo ao organismo e causa gases, diarreia, cólica e outros desconfortos. Mesmo assim, algumas pessoas toleram algum teor de lactose, mas se não tiver certeza sobre este quadro, é melhor consultar um especialista.
 
Quando o corpo exclui de vez a lactose o corpo para de gerar lactase, e com isso cria-se um problema. “E hoje há evidências de que a lactose é importante para promover o equilíbrio da microbiota intestinal”, disse Marcelo Bonnet, engenheiro de alimentos da Embrapa Gado de Leite.
 
Alergia à lactose
 
“Trata-se de uma resposta exagerada do sistema imune contra a proteína do leite”, define Ariana Campos Yang, coordenadora do Ambulatório de Alergia Alimentar do Hospital das Clínicas de São Paulo.
 
Mas, dependendo do tipo da alergia, os sintomas podem ser parecidos, portanto, os médicos se baseiam na idade para realizar um diagnóstico. “A intolerância dificilmente surge no bebê. Já a alergia se revela no início da vida e, em geral, é transitória e vai até uns 5 anos”, explicou Ariana.
 
Muitos pais evitam dar leite de vaca até por volta do aniversário de um ano do bebê, mas isso não vai trazer nenhum benefício se ele não mamar mais no peito da mãe. “Atualmente, sabemos que retardar essa introdução até sobe o risco de alergia, porque se perde a fase em que o corpo da criança está preparado para aprender”, disse a especialista.
 
O melhor tipo para você
 
O teor de gordura é apenas um dos aspectos que vêm à tona na hora de comprar leite. Atualmente existem leites com níveis elevados de vitamina D, ferro, fibras e outros.
 
“Se a alimentação não tiver a quantidade necessária desses elementos, os produtos enriquecidos podem fazer a diferença”, disse Marcia Gowdak. “O ideal é corrigir esse tipo de situação paralelamente, para não ficar dependente dos leites fortificados”, orientou.

 
*Flávia Fontes é graduada em Medicina Veterinária e doutora em Ciência Animal pela Escola de Veterinária da UFMG.
 
 
 

Veículo de Comunicação: Site da Revista Exame - 24 de março de 2017
 
São Paulo – Na última semana, a Operação Carne Fraca, a maior da história deflagrada pela Polícia Federal, levantou uma série de dúvidas sobre o que pode ou não ser adicionado na elaboração de carnes. 
 
O Ministério da Agricultura, contudo, avaliou como exagerada a narrativa sobre o caso.
 
Segundo o ministro Blairo Maggi, algumas das medidas apontadas como irregulares  pelos investigadores são, na verdade, práticas autorizadas no setor. Além disso, segundo ele, os problemas eram pontuais e não refletiam a realidade dos mais de 4 mil frigoríficos do país.
 
Mas, afinal, o que está liberado (ou não) no processamento das carnes?
 
EXAME.com conversou com especialistas em inspeção de produtos de origem animal e engenheiros de alimentos para esclarecer o que é permitido nesses casos. Veja a seguir.

Conservantes: itens necessários dentro de um limite
 
Algumas substâncias são adicionadas nas carnes com o objetivo de conservar o alimento, realçar o sabor e até mesmo controlar bactérias.  O ácido ascórbico, popularmente conhecido como vitamina C, por exemplo, é um desses ingredientes químicos que são utilizados para conservar o alimento.
 
De acordo com Afonso de Liguori, médico-veterinário, Professor Titular do Departamento de Tecnologia e Inspeção de Produtos de Origem Animal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a indústria coloca esse elemento nas carnes para evitar que ocorra a oxidação, que nada mais é do que uma reação de degradação das gorduras no produto.

“O ácido ascórbico é uma substância antioxidante de origem natural que tem a função de garantir que não haja alteração no sabor do produto” afirma. 
Liguori explica que, respeitando a dosagem, os antioxidantes e conservantes não oferecem risco à saúde. A mesma lógica vale para o nitrito e o nitrato, que auxiliam no controle de bactérias e também servem para manter a cor rosada nos produtos cozidos, como no presunto. “Essas substâncias só se tornam tóxicas ou cancerígenas se usadas em grande quantidade, acima dos limites legais permitidos”, diz.  
 
A proporção máxima para esses aditivos é de 150 miligramas para cada quilo de produto. Segundo os investigadores da operação Carne Fraca, produtos de uma das empresas suspeitas apresentavam proporção superior ao limite permitido. Segundo os especialistas, o aumento na dosagem ajuda a estender a validade da carne, e, nesse caso, pode ser cancerígeno.
 
Veja aqui o regulamento técnico que estabelece os limites para cada aditivo.

Água nos frangos: um tipo de fraude comum
 
Especialistas consultados por EXAME.com relataram que a absorção irregular de água em frangos é um tipo de fraude comum, e antiga, realizada pelos frigoríficos.
Em termos práticos, a injeção do líquido na carne serve para aumentar o peso.
 
“O processo de resfriamento do frango passa por uma imersão em tanques de água, o que gera uma absorção natural de líquido no produto”, descreve Anirene Galvão, engenheira de alimentos e doutora em Tecnologia dos Alimentos.
 
Segundo ela, o Ministério da Agricultura determina que o volume de água não pode  ultrapassar 8% do peso total da carcaça de ave.
 
Para ela, a brecha para fraudes pode acontecer por conta de falhas na fiscalização. “Existem máquinas com pequenas agulhas que perfuram e fazem a ‘injeção extra’ de água no frango”, diz. “Para barrar a absorção superior ao índice permitido, o fiscal precisa acompanhar todo o processo e retirar algumas amostras nos frigoríficos para análise”.
 
O transporte dos frangos é outra operação que exige cuidados específicos. De acordo com a legislação vigente, o alimento deverá ter uma embalagem primária antes de seguir para o depósito onde é feita a montagem em caixas de papelão (embalagem secundária).
 
Segundo Anirene, o frango não deve entrar em contato com o papelão em hipótese alguma. “Esse material é reciclado e não pode ser higienizado. O contato direto pode contaminar a carne”, afirma.
 
Linguiças, salsichas e mortadelas: do que elas podem ser feitas
 
Cada um desses produtos possui uma composição diferente de matéria-prima. No caso de alguns tipos de linguiça cozida, como a calabresa, por exemplo, é permitido usar até o limite de 20% de Carne Mecanicamente Separada (CMS), que consiste em uma mistura com outros tipos de carne retiradas dos ossos do boi, frango ou porco.
 
A CMS, porém, é proibida em linguiças que não foram submetidas ao processo cozimento e permanecem cruas e dessecadas.
 
O regulamento técnico também detalha quantidades mínimas de nutrientes. No caso das linguiças, o teor de gordura deve estar entre 30% e 35%, a proteína entre 12% e 14% e o cálcio entre 0,1% e 0,3%.  Veja aqui todas as exigências técnicas.
 
Já na fabricação das salsichas, as CMS de diferentes espécies de animais são permitidas entre o limite de 40% a 60% da sua composição. A legislação exige que o teor de gordura não ultrapasse 30% e que haja, pelo menos, 12% de proteína. Veja aqui todas as exigências técnicas.
 
Na matéria-prima das mortadelas, as carnes mecanicamente separadas também podem ser adicionadas com limites entre 20% e 60%. O regulamento exige que a gordura do produto fique entre 30% e 35% e que tenha no mínimo 12% de proteína. Veja aqui todas as exigências técnicas.

Salmonela em carne de aves: coloca no fogão
 
De acordo com o Ministério da Agricultura, a Salmonela é uma bactéria comum no trato gastrintestinal dos animais e, no caso das aves, é um problema mundial para o qual não há medidas efetivas para eliminá-la da carne crua.
 
“Quando detectados lotes positivos para as salmonelas de relevância em saúde pública, a legislação prevê que os produtos sejam destinados ao processamento térmico de cozimento que assegure a destruição do patógeno”, afirma o ministério em nota enviada a EXAME.com.
 
Segundo o médico-veterinário da UFMG Afonso de Liguori, quando o produto não é armazenado em sua temperatura adequada, a bactéria que vive naturalmente dentro da carne pode se multiplicar.

Por isso, a forma mais eficaz de eliminar a Salmonela é consumindo o alimento cozido e bem passado. “Com o aquecimento adequado da carne, a bactéria sempre vai morrer”, diz.
 
Recomendações básicas para consumidores
 
Liguori ressalta algumas recomendações de segurança para o consumidor: segundo ele, os brasileiros devem observar a integridade da embalagem da carne, checar as datas de fabricação e validade do produto e verificar se o rótulo de qualidade não foi modificado.
 
“O ideal é que haja uma co-participação entre o cidadão e o agente fiscal na hora de fiscalizar os alimentos de origem animal”, diz Liguori.
 
A engenheira de alimentos Anirene Galvão acrescenta que também é importante ficar de olho na coloração. “Se a cor da carne está muito vermelha, esse pode ser um sinal de presença de corantes no produto”, afirma. “Além da cor, a textura e o cheiro precisam ser verificados pelo consumidor. E claro: em caso de irregularidade, o cidadão deve acionar o gerente do estabelecimento”.

*Afonso de Liguori é professor do Departamento de Tecnologia e Inspeção de Produtos de Origem Animal (DTIPOA) da Escola de Veterinária da UFMG.
 

Veículo de Comunicação: Site do Hoje em Dia - 24 de março de 2017



A Operação Carne Fraca chocou o país ao desmascarar um esquema de venda de produtos estragados. Mas a verdade é que os belo-horizontinos, sem saber, são expostos diariamente a alimentos impróprios para o consumo. Realidade encontrada em sacolões, padarias, lanchonetes, açougues e supermercados pela Vigilância Sanitária (Visa) da capital mineira.

Somente nos dois primeiros meses de 2017, a quantidade de produtos apreendidos nos estabelecimentos comerciais da cidade cresceu 76,6% comparado com 2016, ao passar de 18 quilos para 31,79 quilos. Em todo ano passado, foram 137,3 quilos, segundo dados do órgão.

Apesar do crescimento, os números poderiam ser muito maiores, segundo o gerente da Visa, Daniel Nunes. Ele explica que os 147 fiscais que atuam em Belo Horizonte acumulam uma série de funções além da análise dos alimentos à venda propriamente dita. “São dezenas de atividades, como vistorias em residências por causa de acúmulo de lixo e de água parada, por exemplo”.

Perceptível

As principais causas de apreensão de alimentos na cidade são data de validade vencida, produtos sem registro no órgão competente e armazenamento inadequado. São inúmeros os motivos e muitos deles são perceptíveis até por quem não é fiscal.

A reportagem percorreu vários estabelecimentos na região Central de Belo Horizonte, a que acumula maior quantidade de ocorrências, e flagrou uma série de irregularidades. Foram encontrados sacolões onde o lixo disputava espaço com frutas, verduras e hortaliças. Em alguns casos, a sujeira era tanta que moscas pousavam sobre os produtos vendidos e o chão, que era branco, estava preto. Em um sinal de que a situação seria rotineira, as pessoas não pareciam se incomodar com ela.

Condição inadequada de higiene é algo tão grave que pode levar à notificação do estabelecimento e até a multa. “A grande questão é o risco de contaminação dos alimentos. Esse lixo pode se tornar foco de animais como moscas, baratas e ratos. E quem consumir o produto depois pode contrair uma série de doenças”, afirma Daniel Nunes.

Outra irregularidade encontrada ontem foi a “maquiagem” do prazo de validade. Uma pêra importada do Chile, por exemplo, tinha na embalagem a informação de que deveria ser consumida em 180 dias, mas não havia a especificação da data de referência. “Um produto com essa rotulagem ou foi adulterado pelo revendedor ou não passou por qualquer tipo de fiscalização. Jamais poderia estar sendo vendido”, diz o gerente da Vigilância Sanitária.

Fiscalização da carne vendida depende de denúncias

A Vigilância Sanitária de Belo Horizonte aguarda orientação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para fazer uma vistoria mais intensa nas carnes vendidas na cidade. Até que isso ocorra, a instituição só conta com as denúncias feitas pelos consumidores para agir.

“Precisamos de uma diretriz para criar uma estratégia. É importante saber quais produtos e lotes devemos priorizar. Porque sair apreendendo qualquer coisa não faz sentido”, afirma o gerente de Vigilância Sanitária de Belo Horizonte, Daniel Nunes.

Neste ano, até fevereiro, chegaram à instituição apenas 62 denúncias referentes a todo tipo de alimento. No mesmo período do ano passado, foi registrado mais que o dobro (146).

O retorno dos consumidores é importante principalmente por causa dos riscos da ingestão de carne imprópria. Segundo a coordenadora do laboratório de carnes da Escola de Veterinária da UFMG, Cléia Batista Dias Ornellas, esse consumo pode levar até à morte.

“Temos várias doenças relacionadas a agentes contaminantes. O impacto sobre a saúde de quem consome esses microorganismos varia de acordo com o tipo e a quantidade deles no alimento”, afirma.

Cuidados

A especialista alerta que para não “levar gato por lebre” o consumidor precisa tomar alguns cuidados simples. O primeiro deles é observar a cor e o cheiro das carnes. A higiene do profissional que manuseia o alimento também precisa ser levada em consideração. As unhas, por exemplo, precisam ser curtas e limpas. E nunca pode ser a mesma pessoa quem corta a carne e recebe o dinheiro. É preciso ter também cuidados após a compra do produto, mantendo-os refrigerados.

Aqueles estabelecimentos flagrados com produtos impróprios para consumo podem ser multados e até mesmo interditados até que resolvam a irregularidade. Além disso, podem ter o alvará sanitário cassado. O documento é renovado anualmente e necessário para funcionamento regular dos estabelecimentos.

*Cléia Batista Dias Ornellas é professora do Departamento de Tecnologia e Inspeção em Produtos de Origem Animal.

 

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